segunda-feira, outubro 06, 2008



Sere-
níssima




Veneza está aqui sob os meus olhos! Esplêndida nos alongados matizes da sua laguna, na cor das suas casas, nas inúmeras pontes que a unificam sob um sol quente. Cheira a maresia e o musgo está mais acastanhado. De pé, num ponto mais alto, avisto a ilha entre as ilhas. Se a memória não me estiver traindo, é aquela onde passei um Verão com o pai. Onde fui feliz. Onde o tive só para mim. O nome foge-me nos lábios que a não sabem pronunciar. Não era Murano de que ambos não gostámos. Não era Burano onde vínhamos frequentemente sempre que eu sentia saudades do arco-íris e onde, num dia de sol, dançámos os dois na praça da igreja ao som de uma música que só nós ouvíamos. A outra, era uma ilha com ruínas onde o pai desencantava peças antigas que, depois de longo estudo, datava, colocava os vários “cacos” em caixas próprias que, devidamente embaladas, eram enviadas para Turim onde eram limpas, levemente restauradas - contrariamente aos desejos do pai - e em seguida reenviadas para a ilha e colocadas no Museu que, ao tempo, era apenas constituído por duas salas quase nuas.

Continuei a deixar o olhar divagar. Procurei a ponte junto à Academia onde o pai gostava de me levar e, onde, manhã cedo, sentados nos degraus me ensinava o cuidado e rápido processo das aguarelas. Ainda devem estar algumas na pasta verde e preta do escritório onde o pai as guardava com todos os meus desenhos.

Deixei o olhar correr para a direita e com o leão da Praça de São Marcos a servir de baliza descortinei aquela igreja que parecia erguer-se da água – S. Giorgio Maggiore onde uma paragem era sempre obrigatória, não por qualquer rito religioso mas para olharmos Veneza e a laguna do alto do seu campanário ou, a horas em que não houvesse turistas, nos colocarmos na coxia da última fila de bancos a olhar a laguna; parecia mesmo que aquela porta desaguava na água pontilhada com as cúpulas de La Salute. Um frio percorreu a minha mão como se nela se tivesse vindo colar a do pai.

Começava a andar na direcção das pequenas ruelas e dos pequenos braços de água que cozem a trama da cidade do lado esquerdo do Gran Canal quando ouvi a voz poderosa e autoritária da minha avó:

- Madalena, saia daí, não vê que a maré está a encher e se cair vai aleijar-se nas rochas dessa poça?!

- Já vou, avó.

- Despache-se.

É sempre assim. Há sempre alguém a interromper estes momentos de íntima paz, silêncio e sonho.

A custo deixei aquelas poças junto às pedras que formam o pontão; a maré baixa estava a avançar em direcção à preia-mar e, daí a pouco, também já nelas seria impossível descortinar Veneza. Abandonei aquele lugar cabisbaixa e tristonha. Quando cheguei ao toldo que minha avó mantinha, invariavelmente, todos os anos, em Agosto e Setembro, perguntei-lhe:

- Avó, lembra-se do nome daquela ilha, perto de Veneza, onde o pai fazia escavações?

- Torcello; porquê?

- Estava ali a olhar as poças e nelas a ver Veneza, a laguna, os palácios, os...

- Chega, Madalena! a menina já não tem idade para viver sempre a sonhar. Isso até lhe faz mal! Se se empenhasse em ser como as outras meninas da sua idade, seria bem mais feliz. O mal foi a sua mãe ter consentido que o seu pai a levasse muito mais tempo do que o estipulado pelo tribunal. Ficou assim, meia aluada, como ele! E agora já é tarde, sobretudo depois de ele lhe ter deixado aquele casarão cheio de tralhas; o seu pai só quis prolongar em si esse reino da fantasia. Viva e deixe-se dessas tretas!


Calei-me. Não valia a pena explicar-lhe que a única coisa boa que eu guardo dessa separação traumática foi os meus pais nunca se terem desunido no que a mim dizia respeito.

Olhei para a minha Veneza que a maré a encher ia desfazendo e, entre céu e água, julguei descortinar um sorriso.




HFM - Ericeira, praia do Sul, 19 de Setembro de 2008



Nota: pequeno conto escrito depois de ter estado entretida a olhar as poças da maré baixa e a pensar nas fantasias que eu criava, quando criança, como o célebre sangue do Capitão nas rochas das Furnas – um conto um dia a escrever.

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terça-feira, setembro 04, 2007

Abrindo arcas


Sentei-me no chão. Pressentia que ia ser longa a manhã. Não por a dimensão do sótão; tinha-o restringido àquela grande arca de cabedal. Fechara o coração ao piscar de olhos de todas as outras tralhas. O meu mundo, hoje, ficaria encarcerado naquela velha arca que nem sabia a quem pertencera. Estava gasta ,o tempo encarregara-se de a envelhecer assim como os trambolhões da vida, as múltiplas mudanças e até os imensos rabos que em cima dela se tinham sentado. Aí, a minha quota-parte fora grande sobretudo quando ela se encontrava, em casa da minha avó, no canto da janela que dava para a serra que o rio, ao fundo, regava. Era aí o meu poiso habitual. Já nesse tempo gostava de, por momentos, estar só e olhar a serra, o rio, os verdes e toda a gama cromática que despertava ansiedades e comoções na criança citadina que eu era. Mundos desconhecidos. Impenetráveis. Por onde a fantasia escorria em golfadas descontroladas. Até que as mãos da minha avó se poisassem sobre o meu ombro na pacificação de todos os medos.

Onde eu já vou! Leonor, volta à realidade! Não estás aqui para um percurso pela memória. Para correres atrás do passado. É a vida que te chama. Hoje a avó és tu e é pela tua neta que aqui estás. Areja esse sótão da tua cabecinha e cai na real. Abre a arca e procura a surpresa para a outra Leonor. A tua Leonor, a da outra geração, já que não tiveste coragem de dar esse nome à tua filha. Ainda te lembras como as lágrimas te saltaram quando ela te disse que ia ser uma menina e que ambos já tinham escolhido o nome – Leonor. Pára, mulher, pára!

Vou parar, mesmo! Primeiro há que conseguir abrir o ferrolho esquerdo. Aquela peça que desencaixa do ferrolho está presa, deve estar ferrugenta. Bolas, tenho que lá ir abaixo buscar o WD-40; eu bem disse ao Manel que iria precisar da sua ajuda. Mas isso, sim!... Gosta muito da neta mas gosta mais que as coisas apareçam feitas. Raios partam os homens e mais a sua falta de oportunidade! Mais um pequeno esforço... talvez aquele ferro antigo de lareira me ajude. E ajudou mesmo. Abri a caixa que não a de Pandora. Esta é a dos Limas, esse nome que eu já não tenho pois a arca é herança de minha mãe mas pelo lado das mulheres e, neste país, até no nome os homens têm primazia. Até eu caí na esparrela e sou filha dos anos 60! Não comeces outra vez, Leonor! Tira o tabuleiro superior da arca. As rendas que aí estão não são para hoje. O que tu queres são os fatos de chita que aí devem estar acumulados ou, talvez, com sorte, ainda haja algum corte desses com que a tua avó forrava as gavetas das muitas cómodas que havia na casa em que as listas da chita tinham que bater certinho quando se encontravam. Foi dela que guardei este jeito mecânico de querer tudo perfeito! Quero, sobretudo, é uma chita antiga, não das que agora se arranjam e mesmo assim muito dificilmente. Teve graça terem concordado comigo no tentar reavivar essa tradição – um baile de chita! Havia-os por todo o lado no teu tempo. Depois, eu e as minhas amigas, resolvemos, um dia, reanimá-los quando as nossas filhas andavam aí pelos seus 16 anos. Animou-se a praia e foi impressionante o brilho com que a nossa geração se reviu na beleza daqueles jovens. As raparigas queimadas pelo sol da praia, belas na sua juventude e graciosidade (estás um bocadinho para o piroso, Leonor!) e os rapazes, aprumados nos seus blazers com a gravata de chita e o lenço no bolso. Até os papás estavam babados! O Manel confessou-me que, olhando o filho, tinha sentido pena de no seu tempo se ter recusado a colocar o lenço e a gravata de chita. Sorri, estava tão habituada a essas do Manel que só o facto de ele se estar a rever no Tiago ia amansando as fúrias havidas. O chão já estava repleto de tanta coisa e a arca ainda só ia a meio. Mas ali por baixo já via as cores garridas do que deveria ser chita. Apressei-me. Começaram a sair os fatos – compridos, curtos, decotados, com a cintura subida, com folhos, com saias sobrepostas, linha Império, direitos com buracos ovais nas costas e tantos, tantos outros. Estavam ali, pelo menos, fatos de quatro gerações. E como tinha pensado, lá estavam cinco cortes de chita; contudo, apenas um se aproveitava, já que os outros eram faixas que tinham sobrado do forro das gavetas. Espera aí, Leonor, e se com esses bocados e com outros que tirarias aos fatos mais desengraçados, fizesses um fato, tipo patchwork, para a Leonor? - Bóra nessa, avó, ouvias já a tua neta a desafiar-te. Olhava os fatos e não sabia se tinha o direito de cortar alguns deles; mas o que faziam ali tantos fatos que nunca ninguém iria recuperar? Quantas vezes ouvira a Marta dizer-me – ó mãe, porque não se desfaz dessa tralha toda? Tinha, ainda, a esperança de que, um dia, alguém desse tanto valor a essa arca como eu ainda hoje dava. - Bóra nessa, avó. A voz excitada de Leonor brincava com os teus ouvidos. Bóra nessa... Depois de minucioso estudo escolhi três fatos de que não gostava e que em nada marcavam uma época. Teriam a sua história mas se ela já me passava ao lado, a quem interessariam? Obviamente que nunca escolheria aquele fato horrível de folhos sobrepostos e de uma chita demasiado escura; não o escolheria porque sabia ter sido o fato que a minha avó usara quando conhecera o meu avô. Era uma contadora de histórias a minha avó, preenchera-me as noites e as tardes de Julho quando o calor apertava e era preciso ficar em casa. E aquele fatinho sem graça até tem uma das chitas mais bonitas! Com estes e com as outras faixas vou conseguir que a Idalina me faça o fato para a Leonor. Dobrei-os cuidadosamente e coloquei-os no plástico que tinha trazido. Havia agora que arrumar a arca. E se for preciso vir buscar mais chita? Não, não vou arrumar nada antes de levar as chitas à Idalina. Vou deixar isto tudo ao ar que até faz bem e trago lá de baixo naftalina para colocar na arca; já agora tiro tudo para apanhar ar. De cócoras, fui retirando da arca o muito que nela havia e colocando-o em várias cadeiras velhas a que limpei o pó. Lá estava a minha obsessaozinha! A certa altura quase que as pernas cederam; nas minhas mãos estava o macaco/jardineiras verde seco que comprara em Londres quando estava à espera da Marta. Quando o Manel me viu assim disse-me – tu bem querias contratar um jardineiro e largámo-nos os dois a rir! Nem sabia como havia de chamar àquilo, não eram jardineiras, também não era um macaco, era uma espécie de calções compridos e largos com peitilho que terminava em duas pontas a que tinha de dar um nó. Pouco práticos pois para fazer o nó tinha de levar muito tempo e, como estava grávida, ia frequentemente à casa de banho... uma trabalheira! Afaguei os calções como se ao afagá-los as minhas mãos se passeassem na minha barriga nesse gesto tão comum às grávidas. - Anda cá, sr. jardineiro, chamava-me o Manel, deixa ver se o rapagão já está a jogar futebol. Nesse tempo o sexo só era conhecido quando o bébé nascia e o Manel tinha investido num rapaz embora, verdade seja, sempre me tivesse dito que a única coisa que lhe importava era que fosse perfeito e tivesse saúde; uma menina seria sempre bem vinda! E fora uma menina. Marta para começar por M já o que o Manel detestava o nome de Manuela. E fora bem vinda a menina, ainda hoje o ai-Jesus do papá. Irra, mas será que a minha cabeça não pode pensar noutras coisas? Ponto final. Vou também levar comigo os calções. Como estou mais gordinha pode ser que ainda me sirvam e então serão mesmo bons para a jardinagem. Finalmente servirão o objectivo que o Manel lhes destinou.

- Ó avó, são lindas estas chitas! Era cantante a voz de Leonor enquanto nelas remexia.- Eu até podia ficar com este fato e a Idalina punha-mo ao meu corpo. Claro que tinha escolhido aquele que tinha uma chita lindíssima de cores garridas onde sobressaía o azul, o vermelho e o magenta. - Nada disso, Leonor. Vamos fazer um fato como não haverá outro no baile, um bocadinho piroso mas há que ter imaginação! Disse-lho enquanto fazia um esquisso num papel para demonstrar o que tinha pensado fazer e ia colocando números em cada quadrado ou faixa para indicar a chita a que correspondia. - Ó mãe, olhe que isto não é nenhum tapete de Arraiolos! Ri-me mas sabia que Marta estava encantada. - Ó avó e o que é isto aqui, tão giro? disse Leonor enquanto agarrava no meu macaco/jardineiras. Contaste a história e a Leonor, com aquela ironia, mescla de humor e de observação, disparou imediatamente – ó mãe, estás-te a ver ali dentro? - Bom, meninas, vamos mas é todas à Idalina que a mulher tem aqui muito trabalho para fazer e a festa é já no próximo sábado.

Quando regressámos, o calor amansara um pouco e o sol já não batia no jardim, a hora ideal para a rega. Sorrindo vesti o macaco/jardineiras que afinal ainda me servia. Bolas, tenho mesmo de fazer dieta! pensei-o com ironia pois sabia que tudo iria continuar na mesma! Quando desci, fui aclamada por mãe e filha. - Ó avó tem de me dar esses calções. - Nem penses nisso, agora que os recuperei vou mas é usá-los, são bem confortáveis e dentro deles posso mexer-me à vontade pois já não tenho a tua mãe aos pontapés; como dizia o teu avô, julgando que seria um rapaz, ele já joga futebol! Riram-se as três. - Anda, Leonor, vem-me ajudar a regar o jardim. - Que frete, avó! - Bóra nessa, rapariga! Mãe e filha olharam para o lado na minha direcção e largaram-se a rir.

- Ó avó, o avô deve estar a chegar, oiço um carro a subir. Era realmente o Manel que, depois de arrumar o carro mesmo à beirinha do portão, pronto para sair no último minuto da próxima manhã (ainda hoje era um grande dorminhoco), veio ter connosco. Beijou-me e depois, virando-se, disse – como está a minha Princesa? - Ó avô, por favor, já não sou nenhuma criança! - Pois não, mas continuarás sempre a ser a minha Princesa! e riu-se e Leonor esboçou um sorriso atípico perfeitamente revelador do que pensava. - Sabes avô, a avó vai-me fazer um fato lindo de chita que desencantou lá no sótão para o baile das chitas, vai ter muitos bocados de chita diferentes, cruzados e com um design muito giro que a avó criou. Já fomos à Idalina e amanhã vamos lá para ver se é aquilo que a avó quer e... - Ai, rapariga, que grafonola tu me saíste. Espera aí um bocadinho. Vai haver um baile de chitas? - Pobre cabeça a tua, Manel, então não te disse que vamos fazer ressurgir novamente essa tradição? - Se calhar disseste-me mas eu já conheço a tua mania de andares sempre a esgravatar no passado e não pensei que fosses com essa para a frente. – Pois pensaste mal, olha que mal divulguei a ideia, tive logo imensa aceitação na geração da tua filha que também, pelos vistos, gosta de recordar e, então na da tua neta, é melhor nem pensar!. Estão excitadíssimas! - Deixa lá que então o bota de elástico sou eu!... - Ó avô deixe lá isso e olhe para a avó, não gosta do fato novo dela? - Qual fato novo? – Então, esses calções que ela tem vestidos! - Mas aquilo é algum fato? - Já não te lembras dele? perguntaste num fiozinho de voz. - Eu, não, porquê, devia lembrar-me? Voltei-me e continuei a regar o jardim tentando não sentir essa lágrima que não poderia deixar sair. Estava habituada ao desapego do Manel mas aquele macaco contava uma história... Bóra para outra, Leonor!

Estava mesmo calor e o António, quando chegara, propusera que jantássemos cá fora. Os homens trataram de pôr a mesa enquanto nós ultimávamos umas saladas. Leonor pusera velas em cima da mesa o que levara Manel a dizer – estás cada vez mais parecida com a tua avó, também terás vivido nos anos 60? - Porquê, avô? - Porque nessa altura as velas estavam presentes em tudo. Nada se fazia sem velas e a tua avó adorava estar numa sala só com luz de velas. Aliás se fores ao meu escritório, ao livreiro de parede, verás que na segunda prateleira a contar de cima há uma mancha redonda preta. Uma gracinha da tua avó logo no dia em que o armário chegou a nossa casa. E nesse tempo ele não estava no escritório mas sim na sala. Acendeu velas e achou que ali uma ficava muito bem. Esqueceu-se é que o fumo ia queimando a madeira, quando deu por isso já não havia nada a fazer. – Ó avô, mas a luz das velas é tão bonita! Enquanto eles falavam tu sorrias interiormente. O que teria acontecido ao Manel para estar a recordar? Aquela miúda trazia à superfície o melhor de cada um.

O jantar já tinha acabado e estávamos a gozar o fresco da noite quando o Manel se levantou e disse – vou ali buscar uma coisa para vos mostrar e saiu disparado já não ouvindo a pergunta da Leonor - o quê, avô?

Quando regressou, virou para nós uma grande fotografia e disse: - apresento-vos o meu jardineiro particular e, olhando na tua direcção continuou – é que também eu tenho as minhas recordações e guardo as minhas memórias.

Era uma fotografia minha, grávida da Marta, vestindo o macaco/jardineiras.



HFM - Lisboa, 3 de Junho de 2007

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segunda-feira, junho 25, 2007

NÃO ME LEIAS


Na Rua Anchieta, comprara o livro por duas razões: o título – NÃO ME LEIAS e a cuidada assinatura nas duas primeiras páginas – ANA CATARINA LACERDA, a mesma da autora do livro.

Nunca tinha ouvido falar de ANA CATARINA LACERDA mas o título era, para mim, uma trouvaille e chegava para justificar os 1,5 euros que por ele me tinham pedido. Os poemas não eram a minha área mas aquela caligrafia cuidada, inclinada sobre a direita mas nada tendo da antiga letra inglesa, suscitara-me a curiosidade e, ao arrepio de mim próprio, sentira necessidade de conhecer aquela enigmática ANA CATARINA LACERDA. A tal que apunha o seu nome, como tantos de nós fazemos nos livros que compramos; mas aquele não era um livro qualquer, era o seu próprio livro de poemas em edição de autor.

Interessou-me logo esta mulher que autora se queria leitora, que leitora não se identificava com a autora.

Que rios de palavras afastariam estas duas metades? Qual a mulher? Qual a poetisa? Qual a leitora?

Via-a nas noites quentes sentada, devorando o ritmo na palavra, encantando-se na melodia das técnicas, percorrendo a noite na companhia que autora e leitora se faziam mutuamente.

Pressentia ainda que aquela ANA CATARIANA LACERDA, a da letra miúda ligeiramente inclinada e perfeita, deveria ser a maior crítica que alguma vez tivera a outra ANA CATARINA LACERDA.

Li o livro de enfiada e, não sendo leitor assíduo de poesia houve, contudo, uma coisa que seguramente podia afirmar – NÃO ME LEIAS fora o nome que a leitora emprestara à autora quando esta, num dia de loucura, lhe tinha passado para as mãos as páginas manuscritas do futuro livro e ingenuamente pedira uma opinião.


HFM - Lisboa, 23 de Novembro de 2007



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sexta-feira, janeiro 19, 2007

Punhos de renda




Capa do livro do meu conto - PUNHOS DE RENDA - que uma amiga minha me ofereceu neste Natal, encadernado por si, a partir das folhas dactilografadas que eu, aqui há uns anos, lhe tinha oferecido. A aguarela da capa é minha a partir de uma que vi num livro.



PUNHOS DE RENDA


Tinha sido destacado pelo governo para, junto de empresas especializadas, ver in loco a construção, solidez e manutenção das infra-estruturas das casas venezianas cujos alicerces tinham como âncora o lodoso fundo da laguna. Era na altura um jovem. Com trinta e quatro anos fora o escolhido pelos conhecimentos que adquirira em Oxford onde me especializara em construções sobre fundos aquáticos e obtivera o meu PHD. A família e até alguns dos meus mestres do Instituto Superior Técnico tinham-se rido da escolha feita. A minha brilhante formação ter-me-ia permitido escolher qualquer tema de especialização mas sentia que, num país junto ao mar, alguém tinha que compreender, defender e proteger a nossa costa e saber onde e como aí se poderia construir de forma a preservar o património natural que já se encontrava em perigo pela erosão provocada pelo tempo e pelo homem.

Quando voltara de Oxford, ficara no IST como professor mas como queria trabalhar no terreno entrara para a empresa que numa parceria com o governo me tinha enviado aos trinta e quatro anos, cheio de mordomias, para Veneza.

Veneza foi um deslumbramento. O trabalho era importante e eu gostava do que estava a aprender. Apesar do que deles constava, os italianos eram uns profissionais e a forma como estavam a recuperar Veneza e a tentar que a cidade não ficasse submersa pelas águas da laguna era algo que me implicava num novo projecto que pensava ser importante para o meu país, assim aí o trabalho fosse avaliado como sendo de relevante interesse.

Para além do trabalho, os dias corriam lestos e eu aproveitava aquela nova forma de vida e a liberdade de que dispunha. Era frequentemente convidado para festas ou simples jantares em casa dos meus companheiros de trabalho mas durante o dia vivia entregue a mim mesmo e tinha, quase sempre, duas ocupações.

No final das manhãs, evitava o tradicional almoço pois já sabia que à noite ou tinha jantar fora ou a minha estadia no Hotel Danieli, mesmo ao lado do Palazzo Ducale, incluia essa refeição. Assim, tentando não engordar - o físico era para mim um aspecto muito importante - ia aos fins da manhã para a Plaza San Marco, sentava-me no Florian e comia uma refeição ligeira ou tomava apenas um café e comia uma sanduíche. Para quem não conhece este café, há que fazer uma pequena incursão por esse paraíso de elegância, de bom gosto e de requinte. O café é antigo e o seu interior é pequeno e charmoso mas a sua esplanada, esplêndida quando não chovia ou não fazia demasiado frio, era o local privilegiado para observar a praça e as suas gentes e para nos deliciarmos com o impecável serviço dos seus empregados, esmeradamente vestidos, que nos serviam o simples café numa bandeja decorada a rigor. Tudo ali transpirava bom gosto!

A minha outra mania, se assim lhe poderei chamar, era sentar-me ao fim do dia no terraço do Hotel Danieli, num pequeno bar junto ao famoso restaurante que do alto do hotel domina a laguna. Gostava de contemplar a beleza e o frenesim do que se estendia à minha frente. Só quem conhece Veneza sabe da sua cor, da magia da sua laguna, do frenesim dos barcos, barquinhos, vaporettos, lanchas, gôndolas e de toda essa algazarra marítima que se cruza numa gincana imparável. Com um copo de gin tónico na mão, para ali me deixava ficar observando Veneza, essa cidade misteriosa, atraente, cheia de fantasias e que a água domina.

Nunca o tempo era demasiado para observar aquele milagre anfíbio.

Mas aí estou eu a perder-me nas recordações que essa cidade ainda hoje deixa em mim. Não foi para isto que me sentei a escrever. O que pode interessar aos leitores as divagações de um jovem face à beleza de Veneza? Para quem sonha lá ir só devem irritar. Para quem já lá esteve é apenas um conjunto de banalidades, havendo ainda que ter em conta todos aqueles que dizem não gostar de Veneza! Custa-me sempre a crer que haja alguém que não goste de Veneza!

Mas voltemos ao fio da história. Falava-vos da cidade dos doges apenas para situar a minha história, melhor as recordações que dela tenho e aquela dose de nostalgia que guardo em mim, bem como tudo o que vim a saber há bem pouco tempo e que me trouxe a memória desses dias despreocupados, em que me lançava numa carreira que ninguém augurava de grande prestígio ou reconhecimento.

Um dia, sentado no Florian por entre aquela amálgama de gente que ali estava, turistas, viajantes, elites do mundo, ou a alta sociedade da cidade, reparei num velho que se aproximava do Florian. Um homem sem idade, nem alto nem baixo, de bengala com castão de prata, todo vestido de branco. Era primavera e apenas uma brisa corria na praça. Reparei melhor nele. Apesar da idade que não sabia quantificar ele vinha de sapatos brancos, sem uma mancha de pó, calças acabadas de passar e de soberbo corte, com uma camisa imaculadamente branca que abotoava num folho de rendas brancas e com punhos de renda. Na cabeça, um chapéu branco. Parecia uma figura saída de nenhures ou de algum álbum do século passado. Quando abandonei as minhas divagações, vi que um dos empregados se dirigia a ele, o cumprimentava - cliente habitual, pensei de seguida - afastava uma cadeira para ele se poder sentar, falava com ele com um ar de quem o conhece há muito e seguia para fazer o pedido. Entretanto tinham chegado os músicos que tocavam no pequeno palanque que dominava a esplanada do Florian, músicos que eu já conhecia e que me deliciavam enquadrando o ambiente e a imaginação. Reparei que também os músicos cumprimentavam o velho, assim como a maioria dos criados que, saindo dos seus lugares onde se mantinham sempre atentos aos desejos dos clientes, lhe vinham falar afavelmente. Quem seria aquele personagem? pensei para mim.

Enquanto ouvia a música, o meu espírito e olhar foram apanhados por aquele velho de branco vestido e, num anseio de comadre, pensei que gostaria de conhecer a sua vida. Infelizmente a minha hora de almoço estava a acabar e tive de me levantar para me dirigir aos escritórios da empresa que ficavam junto à estação. Teria ainda de andar um bom bocado.

Os dias foram passando e o trabalho era para mim tão interessante, tão envolvente que eu esquecia tudo o mais. Ali, naquela bela e antiga cidade, eu via pôr em prática conceitos que aprendera, conhecimentos anteriormente debatidos e outros que apenas a prática nos pode revelar. Os engenheiros e todo o pessoal técnico eram de uma enorme amabilidade e muito abertos a acolherem-me e a revelarem-me todos os intrincados problemas que aquela cidade lhes colocava e que eles iam torneando e resolvendo num sábio binómio entre a ciência e as necessidades práticas, que só uma técnica sempre em constante inovação conseguia abordar.

Continuava frequentemente a ver o velho de branco que despertava a minha curiosidade e que tão bem se enquadrava naquela esplanada do Florian. Notava sempre o respeito com que os empregados e os músicos o tratavam e o ar coloquial com que ele os abordava, mantendo contudo aquela distância que seguramente lhe vinha do porte senhorial e da educação que recebera desde criança.

Um fim de tarde, em que fora muito cedo jantar a um restaurante cujas mesas bordejavam o Gran Canal, mesmo ao pé da Ponte Rialto, para em seguida me dirigir a um concerto de Vivaldi numa das muitas igrejas de Veneza, vi passar o meu ancião. Vinha de branco, tal como o costumava ver no Florian; reparei apenas que na mão trazia um lenço branco bordado. Atravessou a ponte e de novo o vi desaparecer do outro lado do canal. Só da minha imaginação ele não desaparecia.

Realmente Veneza era uma cidade pequena e uma figura daquelas não podia passar despercebida. Acabada a refeição, também eu atravessei a ponte e, quando cheguei quase ao final das escadas, vi o meu velho de branco a sair de uma loja. Apesar da igreja ficar para o lado contrário, segui na direcção da loja, cruzando-me com ele. Tudo certo!... aquela figura só podia ter saído de um alfarrabista.

Era uma loja aparentemente pequena como muitas lojas de Veneza; talvez para trás tivesse outras divisões o que também era habitual. Mas da rua apenas vi uma montra muito bem decorada, apesar da sua sobriedade, cheia de livros com valiosas encadernações e com algumas gravuras que mereciam um atento estudo a que naquele momento não me podia entregar. O que entrevi dentro da loja revelou-se-me um local de estudo e de silêncio. Havia belíssimas estantes de madeira e mesas sólidas e a um canto um acolhedor espaço que convidava ao estudo e à leitura; digamos que era um espaço requintado, convidativo e calmo, embora um pouco antiquado.

Pensei logo em voltar e assim fiz no sábado seguinte pela manhã.

Por volta das dez, entrei na loja onde apenas se encontrava um empregado que me olhou com um ar interrogativo. Percebi que devia ser um local frequentado por um público muito próprio. Levava a lição bem estudada, e no meu italiano, perguntei-lhe se tinha alguma coisa antiga sobre construção de edifícios em Veneza. Apesar do seu ar simpático e acolhedor, reparei que me olhava como que a perguntar-se quem eu seria e porque estaria interessado naquela temática. Resolvi antecipar-me e responder à sua curiosidade.

Achou graça a que um estrangeiro estivesse ali a estudar a forma de construir e de preservar uma cidade que vive na laguna, para a laguna e da laguna. Num brilhante profissionalismo, convidou-me a sentar no recanto que eu vislumbrara da rua e em breve tinha na minha frente alguns livros sobre o assunto, algumas gravuras e mapas antigos e alguns catálogos.

- Tome o seu tempo, senhor. Aqui não podemos ter pressa. Tome as notas que precisar. Percorra a concorrência e estou certo que se quiser comprar alguma coisa voltará ao Da Ieri.

- Pelo que me parece, é uma casa muito antiga – disse eu para ser agradável.

- Muito antiga senhor, apesar de ter uma gerência recente em relação à data da sua fundação. A casa data do início do século XIX, a nova gerência tem cerca de 25 anos.

- Agradeço a sua amabilidade. Vou consultar toda a informação que pôs ao meu dispor.

- Esteja à vontade. Tome o seu tempo. Os livros têm de ser manuseados com calma pois carregam a história de muitos anos e transmitem-nos toda a sua carga, negativa ou positiva. Vou preparar um café que já lhe trarei.

Escusado será dizer que nessa manhã já não fui ao Florian. Nem sequer consegui folhear todos os livros e apenas olhei de relance algumas das gravuras. Nunca pensei encontrar à minha disposição tanta informação curiosa que poderia vir a ser-me bastante útil.

Perto da hora do almoço saí, dizendo ao amável empregado que voltaria em breve.

- Volte sempre, senhor. Os livros são piores que as mulheres e os antigos têm um charme ao qual não podemos resistir.

- Muito obrigado e até breve.

- Até breve, senhor. Aqui será sempre um amigo.

Voltei mais dois sábados e alguns fins de tarde ao Da Ieri para consultar a larga bibliografia que me tinha sido posta à disposição. Não tinha resistido e até já comprara um pequeno opúsculo dos finais do séc. XIX sobre Veneza. Nestas minhas estadas no Da Ieri, nunca encontrei contudo o meu enigmático velhote de branco vestido. Foram sempre goradas as minhas tentativas.

Estive quase dois meses sem regressar ao meu alfarrabista e quase sem pensar na enigmática criatura que naquela lendária cidade tanto me tinha perturbado. Perturbado fora eu por outra criatura que, como um ciclone, invadira a minha vida. Refiro-me a Francesca, a bela italiana que conhecera num pôr do sol no Lido, na casa de um engenheiro italiano com quem trabalhava.

Estávamos em meados de Julho, Veneza estava parada num calor peganhento que reflectia as esperanças e os medos. Uma lancha tinha-me vindo buscar e a mais uns colegas ao cais do Hotel Danieli e, mal desci no ancoradouro da casa do meu amigo, apercebi-me de uma figura esbelta, envolta num verde água que, à distância, olhava para aquele grupo de jovens barulhentos. Não foi preciso muito tempo para saber que se chamava Francesca e que era uma reconhecida pianista italiana muito em voga. Tinha acabado de chegar dos Estados Unidos onde se apresentara em concertos com a Orquestra Filarmónica de Boston.

Os nossos olhos encontraram-se mais cedo do que as nossas conversas e toda a noite nos fomos seguindo, aproximando e afastando nesse intrincado jogo das recepções mais ou menos mundanas e informais, onde alguns são mais conhecidos e onde há sempre alguma nova estrela a exibir. Francesca era a estrela dessa noite.

Não havia lugares reservados e, naqueles acasos que ambos provocámos, vimo-nos sentados lado a lado nos jardins da casa face ao mar. Havia mais gente na nossa mesa e a conversa foi pontuada por aquelas banalidades mais ou menos interessantes com que se recheiam estes momentos sociais. Mesmo assim houve tempo para trocar algumas palavras a dois. Não lhe perguntei a idade mas pareceu-me que deveria rondar a minha. Tinha longos cabelos escuros a ornar um rosto moreno de onde se destacavam dois olhos rasgados que uns dias eram azuis, outros dias verdes ou que, como ela sempre me dizia, eram grigi.

Trocámos aquela conversa informal, sussurrada numa voz de filme de suspense. Deliciosa. A conversa e Francesca. Foi uma noite inesquecível. Trocámos os números dos nossos telemóveis e nesse fim de semana aproveitámos para nos vermos mais uma vez, o que fomos repetindo ao longo de dois meses.

Foram dois meses de idílio e amor, descobrindo Veneza com os olhos dos amantes e percorrendo algumas terras ali perto que ela fez questão de me mostrar.

Francesca não era a minha primeira paixão, mas foi ela quem despertou todos os meus sentidos e com quem vivi momentos inesquecíveis e irrecuperáveis.

Uma manhã em que um pouco ensonados fazíamos horas para irmos até casa do engenheiro meu amigo onde nos conhecêramos, que deveria mandar a sua lancha buscar-nos, sentámo-nos no Florian de mãos dadas, naquele uníssono de quem não precisa de palavras.

De repente, por entre as arcadas, vi aproximar-se o meu velho impecavelmente vestido de branco num passo apenas um pouco mais lento, talvez fruto do calor asfixiante que se fazia sentir sobre a cidade.

Não pude deixar de chamar a atenção de Francesca.

- Referes-te a Piero? – perguntou ela.

- Conhece-lo?

- Mas haverá alguém que o não conheça em Veneza? – disse-me ela enquanto se virava para mim com um ar de estupefacta interrogação.

- Eu não sei quem é, apenas a sua figura me despertou a curiosidade e, antes de te conhecer, fiz várias tentativas para saber quem era pois encontrava-o aqui frequentemente.

- Claro, Piero é um assíduo frequentador do Florian. Bastava teres feito a pergunta a algum empregado, ou a algum gondoleiro, ou a alguém que viva nesta cidade. É um longa história que te contarei. Longa e triste.

Foi então que naquele café, num radioso dia de Agosto, eu soube que o meu velho se chamava Piero, que era um marquês e ainda que era o dono do alfarrabista que eu frequentava. O seu trabalho, hoje em dia, era ser uma espécie de consultor de certas pessoas, livreiros e entidades que queriam encontrar, comprar e/ou vender livros raros e antigos.

Mas nem sempre assim fora. Parece que ficara sem pais muito novo, tendo herdado uma valiosa fortuna. Fora um viajante desde muito cedo, um espírito iluminado que percorrera o mundo e se enriquecera das várias e milenares culturas de cada povo. Vivera longos anos no estrangeiro, sobretudo durante a II Grande Guerra. Um dia longínquo, já poucos se lembrariam quando, aportara em Veneza para tomar conta do seu palácio quase em ruínas. Vinha só. A mulher e o filho – o seu herdeiro – continuavam algures na América do Sul, onde o rapaz estudava aguardando que o palácio estivesse pronto. Durante dois anos o velho de agora vivera sozinho em Veneza num hotel, enquanto providenciava a recuperação do palácio. Ausentara-se frequentes vezes para ver a mulher e o filho mas regressava sempre para apressar as obras, para delinear mais um pormenor ou para alterar qualquer outro de que o seu espírito requintado não estava a gostar nos acabamentos do restauro do seu palácio.

Era uma homem mundano; movia-se na esfera do poder e dos lobbies diplomáticos de Veneza. Era especialmente visto em todas as actividades culturais em que aquela cidade era pródiga e diziam alguns que por ele tinham passado algumas das melhores aquisições que vieram a enriquecer o Museu Peggy Guggenheim.

Finalmente o belo palácio encontrava-se recuperado e erguia-se imponente na margem do Gran Canal perto da Ponte Rialto. Todos tinham visto chegar lanchas carregadas de mobílias belíssimas que eram içadas para dentro do palácio através de um complexo jogo de roldanas. Quando tudo ficou definitivamente pronto, só faltava a vinda da bela mulher que, mesmo sem a conhecerem, todos diziam ter os traços de uma princesa, e do jovem herdeiro que viria acabar os estudos em Veneza para depois concorrer à prestigiada universidade de Bolonha. Contudo tal facto nunca se dera; o avião em que vinham foi um dos muitos engolidos no estranho e célebre triângulo das Bermudas. Um desastre que ficara na história da aviação e que engrossara o número dos inexplicáveis acidentes naquela zona.

Ao que se conta em Veneza, dizia-me Francesca, a partir daí Piero modificara-se completamente.

O seu porte atlético deu lugar a um porte senhorial, mas de alguém muitos anos mais velho. Deixou de aparecer nas festas da sociedade veneziana. Passou a andar sempre de branco, inclusive no inverno em que se agasalhava com um casaco de peles branco. Os únicos contactos eram com os empregados do Florian, onde ia todos os fins de manhã tomar um café, e onde no verão aparecia também ao fim da tarde. Baixava a cabeça ou fazia um gesto distante com a mão aos seus ex-amigos e conhecidos, mas palavras apenas com os empregados do Florian e do Da Ieri, um antigo alfarrabista, que entretanto comprara e a que dedicava algum tempo quando algum cliente mais importante requeria a sua presença ou a sua mediação.

Apesar dos seus quarenta e poucos anos quando a mulher e o filho morreram, não lhe era conhecido mais nenhum amor ou sequer algum fugidio affaire. Parece que apenas percorria a vida, numa caminhada solitária e alheia, sempre de branco vestido. O olhar perdido no infinito como a perscrutar a laguna e além. Este seu ar indefeso e longínquo realçava ainda mais o seu porte distinto e o branco imaculado da camisa, sempre com punhos de renda, das calças de um tecido sem rugas e dos sapatos de um branco cor de sal.

Tudo isto Francesca me contava, enquanto brincava com os meus dedos, nesse mesmo lugar onde eu o avistara pela primeira vez e onde ele ficara para sempre gravado na minha memória.

Saciada a curiosidade, continuava a haver uma estranha atracção por aquela personagem cuja história apenas viera aguçar a minha imaginação. Vendo o meu ar ausente, Francesca dissera-me:

- És um romântico incorrigível!

Infelizmente eram horas de nos dirigirmos para o ancoradouro e não pude ficar ali a olhar o meu velho à luz destas novas revelações.

Só voltei ao alfarrabista em finais de Setembro. Entretanto, a minha vida levara outra reviravolta. Francesca saíra dela à mesma velocidade com que entrara. Um dia em Burano, onde tínhamos ido almoçar, ela fora clara e precisa. Tinham sido dois meses inesquecíveis e importantes mas acabara de aceitar o lugar de pianista convidada na Orquestra Sinfónica de Boston, por dois anos, e iria partir em breve. Quando lhe perguntei o que isso tinha a ver com o nosso amor, olhou-me com aqueles olhos grigi e, com o seu sorriso irónico, perguntou-me se achava que o nosso amor tinha saída. Eu ficaria ali por mais um ano, ela estaria dois anos noutro continente e qualquer dos dois tinha uma importante carreira à sua frente que não se compadeceria com sentimentalismos que apenas tinham sido ampliados por aquela estranha cidade.

Não lhe respondi. Não havia resposta possível, fora apanhado no enredado do binómio sentimento/realidade e perdera. Aquela belíssima mulher que ali estava sentada ao sol de Burano, enquadrada pelas cores do arco íris que as casas formavam, não poderia ser a Francesca que eu amava.

Sorri. Um sorriso amargo. Despachei o almoço, paguei a conta, mandei vir uma lancha e regressámos a Veneza onde nos separámos no ancoradouro do Palácio dos Doges. Olhei San Giorgio Maggiore e ouvi os passos de Francesca afastarem-se. Nunca mais a procurei. Nunca mais a vi. Francesca era dentro de mim uma lembrança que eu tinha afundado num rubro pôr do sol na água da laguna.

Voltei então à minha vida anterior e a frequentar o Da Ieri onde o empregado me continuava a tratar principescamente. Um dia, vi o meu velho sair de uma porta do fundo da sala. De branco, direito, impondo a sua figura e como que pairando sobre os locais por onde passava. Nem me viu. Pouco tempo depois, quando regressou ao recanto da sala onde me encontrava, o empregado perguntou-me se eu tinha visto aquele senhor de branco, informando-me ser ele o sócio principal daquela casa. Simulei não saber e fiz apenas um pequeno comentário sobre a sua curiosa figura dizendo que já várias vezes o encontrara no Florian. Acenou com a cabeça e disse-me em tom confidencial ser uma figura muito querida em Veneza apesar de ser uma pessoa de muito poucas falas. E a conversa sobre Piero ficou por aí.

O meu trabalho continuava a decorrer com crescente interesse e tinha já o esboço de um estudo para entregar aos meus superiores. Também em mim ia surgindo uma ideia sobre a defesa da costa portuguesa, particularmente a que se situava a norte de Aveiro, cidade que tinha como principal foco de interesse. Receava no entanto que esse trabalho fosse apenas mais um para engrossar as gavetas do poder. O que sabia seguramente era que, quando acabasse aquele quase estágio, ou em Portugal ou em qualquer outro país, queria continuar a trabalhar dentro daquela área. Essa era a única certeza que tinha naquela altura.

Um dia, sentado no Florian, ouvindo as 4 Estações de Vivaldi tocadas noutro ritmo, vi aproximar-se o meu velho de branco, cumprimentar os empregados e sentar-se no seu lugar habitual. Os meus olhos ficaram de novo pregados naquele personagem vestido de branco e com um ar ausente. Parecia-me sempre mergulhado noutro ambiente e bem distante de tudo o que o rodeava. Como eu o compreendia agora! A mágoa que eu guardava em mim e que escondia o amor que ainda sentia por Francesca, aproximava-me ainda mais daquela figura de outrora que vinha colorir a praça e situá-la num tempo passado e ausente.

Estava tão absorvido na minha contemplação e nos meus pensamentos, que só o barulho me fez voltar à realidade. Havia como que uma sirene a tocar e vi um grupo de polícias a correrem com metralhadoras em riste, uns pelo centro da Praça e outros por dentro da galeria. Ao meu lado, na esplanada, havia um ambiente parado que era acrescentado pelo súbito silêncio da orquestra. As pessoas estavam, umas estáticas, em pé, e outras completamente hirtas nas cadeiras. Os empregados tinham-se todos deslocado para junto da entrada do café e aguardavam com um ar expectante.

Abri e fechei os olhos várias vezes como que para ter a certeza de que o que estava a vivenciar era a realidade. Um grupo de polícias, não sei se seriam bem polícias pois a farda era outra, rodeavam a mesa do meu velho. Tinham-no levantado com movimentos bruscos e tentavam colocar-lhe um par de algemas, enquanto que os empregados, vendo o que estava a passar-se, tinham acorrido a defender o velho, gesticulavam e diziam palavras que eu não conseguia ouvir à distância. Surgido não sei de onde, encontrava-se a poucos passos de mim um carro celular rodeado por uma série de homens de metralhadoras em punho e com ar de poucos amigos. Vi arrastarem o velho, que nunca oferecera qualquer resistência, empurrá-lo para dentro do carro e partirem numa ensurdecedora algazarra de sirenes e vozes de comando.

Tudo fora demasiado rápido. As pessoas olhavam-se incrédulas e pela primeira vez vira os empregados de cabeça perdida e sem o ar profissional que lhes era habitual. Falavam, gesticulavam, coléricos e numa algazarra muito latina. No turbilhão daquela aparatosa prisão que ninguém compreendera, ficara em cima da mesa, esquecido, o lenço branco que o velho tinha sempre na mão e que um criado cerimoniosamente recolhera como uma relíquia mas que um polícia, voltara atrás para resgatar.

Soube pelos jornais e junto dos administradores da empresa com quem falei sobre o assunto que, para espanto de tudo e todos, inclusive da polícia, tinham chegado à conclusão de que ele era um capo da mafia siciliana que há cerca de trinta anos, fugido à polícia, tinha conseguido nas américas fazer uma reconstrução facial e encetar uma nova vida. Conduta irrepreensível, uma fachada bem construída e digna, acesso aos corredores do poder e aos lobbies financeiros, continuara no entanto a mexer os cordelinhos através da loja de alfarrabista, apesar de nunca se juntar a ninguém da sua entourage. Em vez de se refugiar numa vida cinzenta e fora dos holofotes, aquele velho tinha optado por desafiar as luzes da ribalta, e a personagem que construíra era tão verídica e tão recheada de pormenores, que durante aqueles trinta anos escapara por completo à lupa da polícia, que não dava tréguas à sua luta contra a mafia.



HFM - Lisboa, 13 de Junho de 2002



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segunda-feira, janeiro 08, 2007

Continho


Nunca lhe tinham proibido a entrada mas era sempre de lado que a olhavam. Mal vestida. Cabelos encaracoladamente grandes e disformes, fora de moda, muito ao viés da sua idade. Saco de plástico na mão substituindo-lhe a carteira e um ar ausente afagavam-lhe o contorno. Entrava sempre decidida, como qualquer outro. Sabia perfeitamente ao que vinha e o que queria. Cada dia, com o amor a bailar nos dedos esguios com eles abraçava o livro escolhido e, com um sorriso, dirigia-se à sala de leitura. Estava aquecida. Reconfortava-a. Depois, sentava-se. E lia, lia, lia quase sem parar. Os momentos de paragem não eram de repouso. Do saco de plástico retirava um caderno velho e esbeiçado e um lápis e, com um letra bem arrumada e muito miudinha, a toda a altura e a todo o comprimento da folha, copiava largas frases do livro ou poemas. Pouco antes de fecharem a concorrida livraria arrumava tudo com minúcia. Com os dedos de amor afagava o livro e, em passos saltitantes, ia colocá-lo no sítio e baixinho murmurava-lhe: - Até amanhã! Enroscava-se nos seus trajes e partia para a noite, percorria poucas ruas e mergulhava na sua casa – a caixa de papelão debaixo das arcadas. Lá dentro, à luz do candeeiro antigo que pendia do tecto, recopiava em papéis soltos, vezes sem conta, o que tinha escrito no seu velho caderno – assim passava o serão. Fazia-o até que chegasse a carrinha que normalmente ali vinha fazer a distribuição de alguma comida. Depois, enrolava-se no cobertor, ajustava o papelão e adormecia.

No dia seguinte, pontualmente, levantava-se, ajeitava os seus haveres no vão da escada de um Ministério e, no caminho para a instituição onde lhe lavavam a roupa e lhe davam um café e pão e onde, por vezes, podia tomar banho, ia deixando por bancos, no parapeito das casas das concorridas artérias daquela parte da cidade ou noutro qualquer local os papéis que, na véspera, à noite, tinha copiado. Papelinhos que iam assinados – A Milionária das Palavras.



HFM - Lisboa, 3 de Janeiro de 2007



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quarta-feira, outubro 25, 2006

A caixa


A caixa era linda, em porcelana de Limoges – assim estava escrito em baixo – decorada com flores em tons vermelhos guarnecidas a ouro.

Maria sempre gostara muito daquela caixa que Rodolfo trouxera de casa de sua mãe quando esta morrera. Ficava mesmo bem em cima da alta escrivaninha, própria para se escrever de pé, que também tivera a mesma proveniência. De um lado um tinteiro antigo de cristal encimado por uma peça de prata lavrada, do outro lado – a caixa. Maria só não gostara da obsessão de Rodolfo quando a obrigara a colocá-la em cima da mesa da casa de jantar nos natais em que a família ali se reunia. Que não era uma caixa para estar numa mesa de festa, dizia Maria. Mas é assim que eu gosto, replicava Rodolfo, e também tenho voto na matéria ou não será assim?

Um dia, largos anos passados, João, o filho mais velho, ouvindo pela enésima vez a história do põe caixa, tira caixa, perguntou ao pai a razão daquela mania. Que quando tivesse dezoito anos lhe diria, respondeu o pai. João encolheu os ombros e pensou de si para consigo – o velho ‘tá pirado!

No Natal seguinte aos dezoito anos de João e quando este já se tinha esquecido da promessa, perante a indiferença de Maria que já pouco ligava à caixa, Rodolfo levantou-se com um copo de champanhe na mão e perante o olhar de espanto de toda a família, disse:

- Um bom Natal para todos os vinte e três aqui presentes!

Enquanto se levantavam para fazer o costumado brinde, Maria disse:

- Meu velho, já não sabes contar, somos só vinte e dois!

- Enganas-te - respondeu Rodolfo. Ao longo destes anos, todos os dias e particularmente no Natal, a minha mãe tem estado connosco - e apontando para a caixa, concluiu – no fundo falso desta caixa encontram-se as suas cinzas.



HFM - Lisboa, Novembro de 2003



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terça-feira, setembro 12, 2006

A arquitecta paisagista


Sentou-se. Estava com calor. Encostou a cabeça. Encerrou os olhos.

Estava-se bem ali. Os jardins sempre a tinham atraído. Este particularmente. Os seus verdes – uma paleta que um duende andara a misturar. A frescura. As árvores de dimensões diferenciadas. Os arbustos. E as flores. Estas escolhidas por pessoas diferentes. Não tinha dúvidas. E os pequenos lagos que, aqui e ali, refrescavam os verdes e a refrescavam a si. Quem os teria desenhado? Se pudesse, apenas os faria menos geométricos, mais integrados no relevo do terreno. Havia ainda umas pedras aparentemente mal amontoadas. Só aparentemente. Um olhar mais sólido mostrava que cada pedra fora judiciosamente colocada. Quando ela ali pudesse intervir acrescentaria junto destas pedras uma pequena gruta. Sempre gostara de grutas. Havia muitas na serra onde nascera. Pensando melhor também acrescentaria uma pequena ponte em arco ligando dois daqueles pequenos lagos. Uma pequena ponte onde só crianças pudessem passar. Ou quem se fizesse passar por criança. Pensando ainda melhor também acrescentaria bancos. Não os bancos normais de jardim mas bancos que despontassem da erva ou das pedras e que se casassem com a paisagem envolvente. Deveriam ser vistos só quando as pessoas chegassem junto deles. Nada que distraísse o olhar da beleza que ela encontrava naquele jardim.

Espreguiçou as pernas. O calor era tórrido. Desencostou-se e abriu os olhos.

Na sua frente, como numa cascata, em tons ocre e sobre a poeira e o lixo viu o amalgamado distorcido do bairro de lata em que vivia. Grossas lágrimas juntaram-se ao suor que lhe corria pela cara.




HFM - Lisboa, 10 de Setembro de 2006



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quinta-feira, janeiro 27, 2005

Diálogos na Brasileira - hfm




O homem, impecavelmente vestido, com um ar um pouco dandy para a sua idade, encontrava-se sentado numa das mesas do fundo da Brasileira. Sentava-se muito direito, dominando a sala e controlando as entradas e saídas.

Nisto, levantou-se. Abotoou o casaco e estendendo a mão disse:

- Olá, meu bom amigo. Sente-se – e ia afastando a cadeira.

Quando o outro se sentou, de costas para o observador, o homem continuou o seu diálogo:

- Então, como está? Ao que me parece, tudo bem! Ainda bem que o vejo, pois estava para lhe escrever depois de ter lido o seu último livro de poemas; queria dizer-lhe o quanto gostei dele. Aquilo sim, meu caro, aquilo é poesia! Moderna, inventiva, descarnada e contudo com todos os traços do passado que criam o elo entre os nossos bons poetas e a modernidade que se quer trazer para a literatura. Tudo a correr bem?

Que sim, ia dizendo o outro, a custo, no meio dos vários encómios e da fértil torrente de palavras com que o seu interlocutor o metralhava. Publicar é difícil mas lá o tenho conseguido, ia dizendo o pobre poeta.

- Se precisar de mim já sabe, conte comigo. Sempre posso falar a um ou a outro dos nossos vates que seguramente depois de lerem o que o amigo escreveu, não vão deixar de lhe dar uma mãozinha.

Um esgar sem jeito atravessava o rosto do nosso poeta enquanto ia agradecendo. - Mas por ora vou indo devagar, tentando não me enredar nos nós intrincados de que é construída a teia da nossa praça.

- Nada disso, homem! O importante, meu caro amigo, é conhecer as pessoas certas! Já agora, se não é indiscrição, como conseguiu chegar à Editora?

Que fora regularmente simples, dizia o poeta numa voz esquiva, embora demorado. Tinha enviado o manuscrito a três editoras ficando à espera da resposta. E continuou dizendo que tinha de se ir embora pois o trabalho esperava-o e a poesia não pagava a renda de casa!

- Para a outra vez fale comigo, meu querido amigo. Como sabe estou sempre aqui, este é o meu escritório e até pode ser que me encontre numa dessas tertúlias a que deveria assistir. Desculpe... ó minha boa amiga que prazer vê-la por aqui, deixe-me apresentá-la, Lígia Abrantes uma nossa artista do palco e aqui o nosso vate Pereira Castro que acaba de lançar o seu segundo livro.

Apertaram-se as mãos e rasgaram-se dois sorrisos.

- Mas sente-se, minha querida amiga, aqui o nosso poeta estava de saída – e arredava a cadeira para que Lígia Abrantes se pudesse sentar.

O poeta, esboçando um sorriso, foi dizendo que tinha sido um prazer conhecê-la mas agora precisava mesmo de ir pois o trabalho esperava-o. E voltando-se para o outro foi dizendo que sim, que viria um dia e foi-se afastando fazendo uma pequena vénia.

O homem fez um trejeito com a cabeça e um sorriso enigmático apareceu-lhe nos lábios; mas rapidamente mudou o seu centro de interesse para aquela jovem que ali se encontrava.

- Então, minha amiga, como tem passado, o trabalho muito cansativo? essas representações?

- Ó senhor doutor, não esteja a brincar comigo, o meu trabalho é sempre o mesmo e eu não represento, sou apenas corista na revista, como o senhor bem sabe.

- Sei sim, Lígia, mas isso não me impede, ao olhar para o seu corpo escultural e para os seus movimentos dignos de qualquer ballet moderno, de sentir que a minha amiga está muito mal aproveitada. Temos que pensar nisso, se calhar apresentá-la a alguém que saiba reconhecer o seu talento e tirá-la desse corpo de bailado onde a minha boa amiga está estiolando – disse o nosso homem numa voz cava e insinuante.

- Ó senhor doutor, o senhor cria sempre em mim expectativas mas a vida é bem diferente – e Lígia levava a mão à cara num estudado gesto de coquetterie.

- Sabe bem que não, sabe que não, a Lígia é que ainda não se quis entregar nas minhas mãos. Qual Pigmaleão faria de si uma actriz! Venha almoçar aqui amanhã comigo, terei muito prazer em oferecer-lhe o almoço e hoje falarei a um director de teatro meu amigo e convidá-lo-ei também para vir almoçar; tem é de me deixar representá-la. Virá arranjada como lhe falei da última vez e deixa a conversa toda a meu cargo. Basta que sorria e que responda o mais brevemente possível às perguntas que ele lhe fizer, eu completarei as suas respostas. Está de acordo?

- E acha que isso vai resultar, senhor doutor? sou uma pobre mulher que tem apenas a 4ª classe e que não tem qualquer cultura – disse Lígia numa voz onde havia um misto de entusiasmo e medo.

- A cultura não é para aqui chamada e claro que resulta, minha querida Lígia, o importante é que me deixe construir a sua carreira e que se entregue nas minhas mãos para que eu a possa moldar.

- Ó senhor doutor mas eu não tenho dinheiro para lhe pagar, como posso eu aceitar isso?

- Não precisa de me pagar agora, minha boa amiga, um dia quando estiver lançada, quando for conhecida, só tem que me deixar ser o seu agente mas isso ficará tudo escrito no contrato.

- Contrato? Qual contrato, senhor doutor? Eu já tenho uma contrato com o Maria Vitória.

- Ó mulher, não se preocupe! Se o director com quem nos vamos reunir amanhã a aceitar, trataremos de ultrapassar esse problema, para isso servem os advogados e então far-se-á um novo contrato delegando na minha pessoa a responsabilidade de construir a sua carreira e tornando-me o seu agente; vai ver que lhe vamos fazer uma óptima carreira. E agora desculpe-me mas acaba de chegar um pintor meu amigo com quem preciso de trocar algumas palavras. Não se esqueça de estar aqui amanhã à uma da tarde, arranjada como lhe falei da última vez, tentando não dar nas vistas e falando o menos possível. Então até amanhã – disse ele enquanto se dirigia a um homem meio desengonçado que acabava de chegar, deixando em cima da mesa o livro, a cigarreira e o isqueiro de prata.

- Muito obrigada, senhor doutor, amanhã cá estarei – disse Lígia num tom de voz baixo e um pouco subserviente.

- Como vai, meu caro pintor? há muito tempo que o não via – disse o nosso homem enquanto, em passinhos pequenos e agitados, estendia a mão a um homem alto, com um corpo que parecia não dominar a gravidade, com uma idade indefinida e que o olhava com um ar meio apatetado.

- Não se lembra de mim, meu caro pintor? Alexandre Mesquittela, conhecemo-nos no ano passado na Embaixada Francesa e gabei-lhe muito as suas obras; sou um grande admirador seu, só não compro as suas telas porque não tenho dinheiro para o fazer mas espero que em breve elas estejam em algum museu para gáudio de todos os portugueses.

- Pois realmente não me lembro de si, desculpe, esta minha cabeça anda sempre noutro lugar – disse o pintor com um ar de enfado.

- Oh, não tem importância! é perfeitamente natural, venha, sente-se ali na minha mesa e tome um cafezinho comigo – e ia fazendo um gesto na direcção da sua mesa.

- Não, muito obrigado, infelizmente não posso. Esperam-me no café Gelo onde tenho um negócio a tratar. Vim aqui apenas entregar uma coisa. Muito boa tarde, foi um prazer – e o pintor, sorrindo, desviou-se e dirigiu-se ao balcão onde deixou ficar um volumoso envelope.

Alexandre dirigiu-se à sua mesa e eu, que o observava junto ao quiosque dos jornais, reparei que na sua cara perpassava um ar de incredulidade e raiva. Havia espanto e um ríctus que se assemelhava a vingança. Vi-o sentar-se, tirar da sua cigarreira, impecavelmente limpa, um longo cigarro que, num gesto de enfado, levou aos lábios e acendeu. Nisto, como se uma mola o tivesse propulsionado, levantou-se num repente e atónito vi-o dirigir-se na minha direcção. Um pouco antes de chegar ao local onde eu estava, ouvi-o dizer:

- Como está senhora dona Maria Ana? Há quanto tempo não tinha o prazer de a ver e o seu marido? muito ocupado, não é verdade?

- Alexandre?! até me assustou, não o tinha visto.

- É que eu estava ali ao fundo, mas quando a vi entrar, não pude deixar de vir cumprimentá-la. A senhora é para mim uma referência. Sempre o foi quando eu ainda petiz assistia a alguns serões na casa de meu pai – e o peito de Alexandre como que empurrava a camisa e os colarinhos impregnados de goma.

- Onde isso já vai, Alexandre. Infelizmente o seu paizinho já morreu e eu e o senhor desembargador para lá caminhamos. Mas desculpe, Alexandre, tenho ali umas amigas com quem vim lanchar e que já se impacientam.

- Ó senhora dona Maria Ana desculpe esta incorrecção mas é sempre tão bom revê-la que nem reparei que a estava a atrasar. Os meus cumprimentos ao senhor desembargador – disse, enquanto cerimoniosamente beijava a mão da senhora.

Alexandre ainda deu dois passos em direcção à sua mesa, mas voltou para trás e dirigiu-se à porta, antes de sair, olhou-me com um ar superior, com aquele ar com que se olha para aqueles que desprezamos.

Saiu para o largo adjacente onde apanhou um pouco de ar, querendo parecer-me que estava a tentar que o ar frio lhe fizesse passar o corado que tinha invadido as suas faces e que era fruto da raiva e da frustração.

Nisto, viu a meio da Rua Garrett o antigo sub-secretário das Colónias e apressou o passo na sua direcção.

- Hernâni, há quanto tempo, homem! por onde andas metido? – e abraçava-o efusivamente.

- Por onde ando metido? a trabalhar, Alexandre! Acabaram-se as mordomias, agora tenho de trabalhar! E tu, o que fazes? onde estás a trabalhar? – disse o outro libertando-se daquele abraço.

- Eu? mas eu não trabalho, Hernâni! Eu vivo dos rendimentos e o meu escritório, como sabes, é ali na Brasileira! A propósito, tenho lá a minha mesa não queres vir tomar um cafezinho? – disse ele enquanto apontava na direcção da pastelaria.

- Até que me ia bem um café! Mas não me posso demorar muito, tenho de ir ali à Rua da Horta Seca tratar de uma escritura.

Vi-os aproximarem-se na minha direcção e Alexandre, com a mão nas costas do amigo, ia-o empurrando na direcção da sua mesa.

- Não me digas que tens aqui mesa reservada?!

- É mais ou menos isso. Como venho para aqui todos os dias, o criado já me guarda a mesa até uma determinada hora; como podes ver é uma mesa de onde domino toda a sala – e Alexandre estava impante e sorridente.

- E o que fazes tu aqui? – perguntou Hernâni com a curiosidade que advém da incompreensão.

- O que faço? O meu trabalho. Dar-me com pessoas. Estar atento a tudo. Conhecer os últimos episódios desta nossa cidade e sociedade. Ver os outros e, acima de tudo, ser visto para que nunca se esqueçam de mim! Mas porque perguntas?

- Porque me faz um pouco de confusão que passes aqui os dias sem fazeres nada. – retorquiu Hernâni.

- Sem fazer nada! Aí é que tu te enganas, Hernâni! Ainda há pouco consegui que uma coristazinha de má fama e sem qualquer mérito se entregasse nas minhas mãos. Em breve há-de ir parar à minha cama e com uns conhecimentozinhos hei-de fazer dela uma actrizita e hei-de ficar com uma boa parte do contrato que lhe hei-de arranjar. E escusas de me olhar com essa cara! Lá nas tuas economias tu fazes o mesmo, só que por outros processos! Olha, ainda hoje tentei junto de um poeta de segunda trazê-lo para a minha esfera para poder dali obter algum dinheirito, mas o raio do tipo é mais curial do que eu pensava e disse-me que não tem pressas, que vai devagar, que não quer ser arrastado pelos lobbies e mais umas bojardazitas deste teor! coitado, um idealista! com esses geralmente não levo nada! Realmente hoje o dia não me está a correr nada bem!

E pela primeira vez reparei que os ombros de Alexandre descaiam como que numa derrota antecipada. Mas rapidamente se recompôs.

- E o que é para ti um dia a correr bem? – perguntou o amigo.

- Um dia em que saia daqui com um programa qualquer para o jantar ou para a noite e com algum negociozito que me vá dando para sobreviver. Mas hoje nem o raio da velha duquesa que está ali no meio daquele grupo de senhoras de idade e que foi amiga de meu pai e com quem convivi muito durante a minha infância se lembrou de me convidar para ir lá a casa e até o estupor de um pintorzeco da nossa praça que anda aí nas bocas do mundo, sabe Deus porquê pois só pinta mamarrachos, até esse fez de conta que não me conhecia!

- Ó homem, mas isso não tem importância nenhuma, precisas de alguma coisa?

- Não, não é isso, é que ele há dias! Até aquele estafermo ali parado à porta não tira os olhos de mim – disse Alexandre enquanto apontava na minha direcção.

Vi Hernâni voltar-se e olhar-me, abrir um sorriso e cumprimentar-me.

- Quem? o Carlos que eu cumprimentei agora? – e perante a aquiescência do amigo, completou – mas o Carlos é um pobre homem que não faz mal a ninguém. Tomara ele que ninguém lhe tivesse feito mal. Calcula que o homem até envelheceu imenso e não é para menos! Está desempregado. Foi trabalhador no Montepio durante anos até que um cliente, sem escrúpulos, lhe conseguiu extorquir uma avultada quantia em dinheiro, não lhe pagou e o pobre do Carlos viu-se impossibilitado de repor o dinheiro. Teve um processo e foi despedido. E teve muita sorte em não lhe terem movido um processo externo que envolvia polícia e tudo. O homem ia enlouquecendo. Anda há dois anos à procura do gajo que o lixou e diz que quando o encontrar se há-de vingar dele. Um pobre diabo que teve muito azar!

Vi Alexandre empalidecer. Pigarreou, ajeitou o colarinho e o casaco. Fez um esgar que, por breves instantes, lhe distorceu a cara e numa voz meia atabalhoada perguntou:

- Disseste que ias à Rua da Horta Seca, não foi? – e perante o sinal afirmativo do amigo continuou. – Então espera que eu vou contigo. Aproveito e passo no meu solicitador. É que ando cansado e com vontade de fazer uma viagenzinha até à Côte d’Azur, está a chegar a saison; tenho de tratar de tudo mas antes vou ver com ele do que preciso para partir e da melhor forma de ter lá o dinheiro disponível, não gosto de andar com muito dinheiro. Vou contigo.

Levantou-se quase deitando abaixo a cadeira e virando-se para o criado disse:

- António, eu amanhã pago a conta, agora estou com pressa e tenho de sair já.

Alexandre deixou passar à sua frente o amigo e em silêncio dirigiram-se para a porta. Passaram ao meu lado. Hernâni baixou-me a cabeça. Alexandre fez que não me viu.

Saí. Vi-os dirigirem-se para o Largo do Camões, deixei-os afastarem-se uns metros e, com a brisa a bater-me na cara, segui-os como se segue um cão de caça.


Lisboa, Março de 2003



hfm

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