sexta-feira, outubro 17, 2008

Anoitecidos


Esguias filtram-se em labirintos luminosos. Linha de iniciados. Viciados. Atropelam-se na premência de cada rajada que soltam. Ausentam-se. Retornam. Purificam-se. Purificam-nos.

São as palavras que o vento escreve, como um estigma, na nossa textura. Pele com que cobrimos o cansaço dos passos desprotegidos. Erráticas formas que inventámos para nos construirmos.

Noite onde habitam todas as ausências e os rasgos. Filtros onde nos acolhemos.

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quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Anoitecidos


Quando a mão se solta os dedos autonomizam-se na destreza do olhar. Pouco importa o que descrevem, seguem a linha e o ritmo e afagam no papel o traço. Espontâneos são as verdadeiras lentes do olhar apesar de tantas vezes embaciadas.

HFM - 07, de Fevereiro 2008



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terça-feira, janeiro 01, 2008

Anoitecidos





Primeiras horas de um ano novo e sempre um receio e uma esperança. O lugar onde estando não sei. O lugar conhecido onde me falho.

Ficam nos afectos estes amigos que comigo percorreram tanto trilho, tanta vida, tantos projectos e desencontros.

Fica ainda esta praia onde deixei tanto sonho, onde o mar se colou à pele da alma.

Fica o amor, transcendendo-me.


HFM - Ericeira, 1 de Janeiro de 2008 - 3,45h



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quarta-feira, setembro 26, 2007

Anoitecidos


Na noite o mar avança com a força que lhe trouxe o equinócio. São vagas que da lua trazem os queixumes e do vento a força altaneira e a soberba das certezas. O casario arruma-se em silêncio e as paredes brancas não lavam a noite.

Só de vez em quando de uma lura sai um coelho.


HFM - 26 Setº 2007



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sexta-feira, agosto 24, 2007

Anoitecidos


Perturbam-se as horas e o sono quando a angústia se infiltra nas margens da noite adensando mistérios que movimentam pesadas interrogações a que a manhã não dá resposta.

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terça-feira, julho 10, 2007

Anoitecidos


Segue o vento mas não te encantes, as sereias estão mudas e a noite afoga-se num silêncio de maresia e ninguém sabe o que a alba nos trará.

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terça-feira, fevereiro 06, 2007

Anoitecidos


São linhas de sombra. Rasgões. Insinua-se na noite a cautela.

Leve. Solta. Eleva-se a palavra. Simples. Depurada. Imprescindível.

A fuga do supérfluo nos lábios da madrugada.


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quinta-feira, janeiro 25, 2007

Anoitecidos


O tempo corrido – diálogos perecíveis entre mim e esta vaga noção do tempo. Um apelo sem resposta, a mágoa do que já não posso, a ânsia de tanto para fazer, conhecer, experimentar.

Adensa a noite o diálogo secando na boca as palavras por murmurar. E tudo gira no corrossel onde desconheço o meu lugar.

Amanhã haverá outro dia. Outra ânsia e a corrente que aqui me mantém liberta porque me consente a liberdade.

Fuga veloz que a noite espraia dilacerando sentires.


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quinta-feira, janeiro 11, 2007

Anoitecidos

Letra a letra dedilho as palavras e a noite. O frio e aquele sono que se estende para lá da consciência trazem às palavras a paciência e o tempo – fios invisíveis tecendo os argumentos. Foge a noite no silêncio e do rio chega esta bruma – poalha de chuva que espelha as ruas.

Só o sibilino som do silêncio erguendo fantasmas nas luzes dissimuladas e na fantasia que cresce com a memória.

Sinais de que em breve o sono ressurgirá madrugada.

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sexta-feira, novembro 24, 2006

Anoitecidos


Quando o dia não trouxe mais do que o quotidiano fui sugar à noite aquele espaço de encontros, memórias e criatividades. Espaço onde assento os medos nas esquinas das sombras. Liberta, aspiro o ar nocturno e dessedento-me. Viajo em mim quando leves se soltam as palavras enquistadas no bulício do dia.

Momentos raros onde a mão se fez doçura e as palavras desatinaram numa sinfonia de segredos.

Até já, vou ali ter com elas.


Lisboa, 23 de Novembro de 2006



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domingo, outubro 22, 2006

Anoitecidos


Não se encerra na noite o silêncio. Estratifica-se nos sons das palavras. Cava um estranho ritual. Sacode, como se fora um grito, todas as insolvências. Espreita cada fresta e assenta dominando os espaços. Matreiro, encolhe-se e quando o julgamos afastado percebemos que é dentro de nós que ele habita. Tal a noite.

HFM-Outº 2006



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terça-feira, agosto 01, 2006

Anoitecidos


Junto à luz do candeeiro ensandecem os mosquitos num turbilhão de voos. Tudo o mais é silêncio e escuridão que apenas alguns candeeiros longínquos vão amansando. De vez em quando – o brilho do farol do Cabo da Roca e a certeza dessa costa que se estende mar adentro sibilina nas suas curvas e enseadas. Nem vento, nem calor. A quietude que tudo projecta e adensa.

Talvez um coelho saia da loura e em zigue-zague se afoite a cortar a noite.



Ericeira, 31 de Julho de 2006



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quinta-feira, dezembro 15, 2005

Anoitecidos


Só uma nota vibra na noite. Singular. Única. Esvoaçando por entre as brasas que se apagam na lareira. Uma nota que brinca e ginga como num solo de jazz. A minha nota. Dissonante.

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sexta-feira, dezembro 09, 2005

Anoitecendo


Tirando os do mês de Setembro estes são os anoiteceres mais belos da Ericeira. Fugas cruzadas no infinito.





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quinta-feira, novembro 03, 2005

Anoitecidos


Ao lusco-fusco percorre a cidade uma demência sem vulto. Embrulha-se nas esquinas. Infiltra-se nos desvãos. Força as janelas aferrolhadas. Esvai-se na rotina. Ao lusco-fusco a cidade perde a vida e nela consente a morte.

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segunda-feira, outubro 17, 2005

Anoitecidos


Para cá da portada ainda o ruído do mar ecoando encosta acima. Gemem os deuses ou os monstros. E a sombra do inverno desassombra em nós os medos. Ruídos, a ânsia e o frio que ainda se não percebe se é de humidade ou já engrossa presságios.

Ecoa o mar nas rochas e eu acolho-me à ténue linha que me conduz de equinócio a solstício por entre essas quatro estações perdidas. Quimeras que envolvo no algodão de nuvens que a lua acentua.


Ericeira, 15 de Outubro de 2005



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segunda-feira, outubro 03, 2005

Anoitecidos


Insone é a noite e os riscos da caneta no papel, sons que martelam o silêncio e o espaço das perguntas sem resposta. Para lá da janela o frio já acolhe a madrugada e desdobra em ondas o mar que, finalmente, se lembrou do equinócio. A humidade congrega esta liquidez e escorre em mim a densidade da noite e a insónia das palavras por escrever.

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sábado, setembro 17, 2005

Anoitecidos


Talvez a lua amplie e ilumine este traço - linha que corre para ti. Talvez.

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quinta-feira, setembro 15, 2005

Anoitecidos


Na hora da vigília em que o corpo já não obedece há ainda a força das palavras e dos sons na harmonia da pauta onde se escreve o instante.

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terça-feira, agosto 30, 2005

Anoitecidos


Alinha-se a noite, como se fosse a primeira. Desce um cinzento que esfuma tudo o que se insinua no horizonte, depois o breu e algures a promessa da lua que ainda se não vê. Só as luzes quebram o medo e o mar que só se ouve e pressente. Uma ausência aparente. Um hiato. Uma melodia que alguns ruídos invadem. E, quanto se julga que tudo está certo e acalmado, a noite muda e clareia. Não, não é o dia ou a sua promessa. Apenas os nossos olhos se habituaram à poalha e, usando dos outros sentidos, emudecem o breu e regozijam-se.

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