Lenda da Rainha Santa – I
AMOR
contada por Afonso Lopes Vieira
Trovador meu rei, a nossa província é bela: tem o mar, a espessura verde, o campo em flor e a alta serra. E Coimbra é perto, e nossa.
Tem castelos de orgulho, mosteiros de glória com capelas de heróis, e os Túmulos onde sonham Tristan e Iseu, que nós cantamos.
E estas terras inda são cheias de ti. oh trovador! Que imensa barcarola o nosso jardim marinho, onde aprendi certos ritmos que ora são de toda a gente.
E que linda lembrança tua é uma terrinha humilde que eu jamais quis ver, perto de outra que te recorda também: Monte Real.
Jamais quis ver essa aldeia vizinha, eu, que passeei a cavalo esta província toda, porque ela tem o nome mais belo do mundo: - AMOR.
Quero guardar preciosa a mentira da minha fantasia, quando imagino o lugar onde amavas não sei qual das tuas donas.
O povo conta o romance da tua terra amorosa, daquela que eu jamais quis ver, para guardar preciosa a mentira do meu sonho:
- Ai flores do verde pinho! Seria Aldonsa? Grácia? Marinha? ou Branca? Que importa, se todas elas eram as rimas de um só cantar!
De Monte Real foras vê-la e nos beijos da sua boca esqueceras que o dia passara e ao lusco-fusco te soltaras deles.
Os beijos de Aldonsa? de Branca? Os beijos de Grácia ou Marinha? Que importa, se o beijo era um só, em outras bocas beijado!
E pela noite adiante cavalgavas, oh com que saudades já daqueles beijos, daqueles beijos que quanto mais se davam, mais sede faziam!
E vinhas compondo uma trova em louvor da amiga fremosa, da bem-talhada, da louçana e da velida.
Em louvor de Aldonsa? De Branca? De Grácia ou de Marinha? Que importa, se as tuas trovas cantavam mas era o amor!
Mas eis que ao longe inxergas uma fila de luzes, e as luzes descima do castelo e entornavam-se tremeluzindo pelo vale...
Era a Rainha Santa que te esperava com multidão de pagens que erguiam no ar pinhas que ardiam brilhando:
- Senhor (sorriu gravemente a Rainha) cego vindes de amor, e eu vos alumio por que vós não percais...
Desde então chama-se Amor a terra que jamais quis ver, para guardar preciosa a mentira do meu sonho.
E no sítio onde a Santa falou, fez-se a aldeia de Cègodim, que recorda as palavras da Rainha. Com o tempo, o povo as trocou...”
Do livro Em Demanda do Graal
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